quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Testemunho









I

Decorria o ano de 2009, quando, em Setembro, recebi o resultado de um centigrama ósseo que a mãe foi fazer, dias antes, a Coimbra.
Depois de vários meses em que a sentimos dia após dia, cada vez pior e de um internamento no Hospital, nada, mesmo assim, fazia prever tão dramático desfecho.
Fui levantar o relatório do exame, pedido com urgência, a uma clinica em Leiria, depois do almoço. Saí do escritório com o coração em ânsias, mas sempre com a esperança de encontrar lá escrito um daqueles nomes esquisitos, de uma qualquer doença que, depois de pesquisado na internet, surgisse a descrição do tratamento aconselhado. Mas não. O resultado foi outro.
Tu não te lembras, pai. Porque estavas em casa. Naquela correria entre a cozinha e o quarto. Entre os chás e os panos de agua fria que colocavas, com carinho, sobre a testa da mãe, pouco tempo te sobrava para cozinhares uma canja ou preparares uma torrada. Que a mãe rejeitava. Ou porque o pão estava queimado ou porque já se encontrava fria. E lá ias tu, no teu passo apressado, pacientemente, colocar na torradeira duas outras fatias de pão.
Nessa altura a mãe já delirava bastas vezes. Assim, nem quando, mesmo que por instantes, ela fechava os olhos e dormitava, tu descansavas. Sentavas-te perto do seu leito e agoniavas com os gemidos que rompiam das suas entranhas. Olhavas em volta e perguntavas a ti mesmo o que seria de ti. Olhavas em volta e sentias-te sozinho, nessa luta inglória que travavas contra uma doença que vias sem conhecer. Devia ser gripe. Ou andaço. A febre, as dores no corpo, os delírios, os vómitos, as cólicas. E eu que não chegava. O tempo teimava em parar quando tu o querias apressado. Porque a minha chegada, a minha presença, era o teu único escape. A tua única folga que tinhas nos teus amargurados dias. Mesmo que por breves instantes.
Por isso, pai, tu não te lembras. Porque não estavas lá. Não te encontravas presente quando tomei conhecimento da verdadeira origem das maleitas com que a mãe se lastimava. Nem viste o meu desespero quando não consegui conter as lágrimas que iam caindo no balcão do consultório, para espanto da funcionária que momentos antes, me tinha entregado o relatório dentro de um envelope. Porque um homem não chora.
Metásteses ósseas espalhadas por todo o frágil esqueleto do já muito debilitado corpo da mãe.
Não me perguntes como desci as escadas do prédio, nem como conduzi até chegar ao escritório. Lembro-me apenas de ter telefonado ao médico da mãe e de lhe perguntar se me podia atender nesse mesmo dia. Depois de lhe explicar o motivo, mandou-me ir ter com ele ao seu consultório nas Caldas da Rainha. A consulta serviu apenas para esclarecer o já mais do que óbvio desfecho. Nada a fazer. Poucos meses restavam de vida à mãe.
Fiz o regresso a Leiria, tentando encontrar, enquanto conduzia, uma solução para uma situação onde ela não existia. E, pior ainda, reunir em mim, a força suficiente para vos encarar sem que notassem a angústia onde me encontrava mergulhado. Porque, de uma coisa eu tinha a certeza; nem um nem o outro estavam preparados para tão cruel realidade.
Lembro-me de não ter sido difícil esconder-vos o meu abatimento. O estado de saúde da mãe tinha piorado a tal ponto, que só tinhas olhos para ela. Nem sequer reparaste nos meus olhos vidrados, nem nas lágrimas impunes à minha vontade de as recolher ou sequer estranhaste a falta das minhas palavras de esperança. A urgência era levar a mãe, de novo, para o hospital.



II

As histórias que te ouvi contar, quase todas baseadas em factos vividos por ti, faziam acender em mim um sentimento de amargura pelos tormentos que rodearam a tua infância. Imaginava-me no teu lugar e aí, pai, mesmo tendo pouco, sentia-me com muito, comparado com o tanto que te faltou.
Nasceste em Trás os Montes, numa aldeia rodeada pela Serra, bem lá nas profundezas do interior. Lá, tudo era raro. Lá, tudo era longe. Até os afectos, distantes como o mar. Já tinhas ouvido falar. Em ambos. Mas não os conhecias. Talvez um dia, pensavas. Ficava a esperança, que essa tinha nascido contigo.
Foi essa esperança que te conduziu, sozinho, aos dezasseis anos, por entre as quintas do Douro, agrupadas pelos diferentes quanto inebriantes aromas exóticos, que se desprendiam dos frutos negros e taninos. Eram tantas as uvas! E tu, de enxada e de tamancos às costas, fugias com a esperança no bolso, das minas onde arriaste durante quatro anos. Sabias que o caminho de regresso te levaria à fúria com que o teu pai prometeu receber-te. A cada passo que davas, sentias-te mais longe daquele buraco tenebroso por onde tinhas entrado, todos os dias, com o coração na boca. Tremias exaltadamente sempre que o elevador começava a descer. O teu pai colocava a sua mão por cima do teu ombro e dirigia-te as únicas palavras que tinha para ti. “Força rapaz!” Mas os tremores não passavam. Apenas se não viam tanto, aos olhos dos demais. Por isso, e pela esperança que trazias no bolso, seguias em frente, atravessando de pés descalços os socalcos que moldavam a face dos montes. Lá em baixo, as águas cristalinas do rio espelhavam os imensos vinhedos. Eram tantas as uvas! E os cães. Que demonstravam a sua ligação profunda aos seus donos, quando te faziam subir para cima da arvore mais próxima. Foi assim, contas tu, que conseguiste o primeiro trabalho, depois de vários dias a vaguear, por entre aquela paisagem esculpida pela cultura milenar das gentes da tua terra.
Foi numa quinta em Pinhão. Era já madrugada, quando aquela figura altiva, de caçadeira na mão, se intrometeu entre o ladrar de dois exaltados cães e a tua voz amedrontada, mandando-os calar. Tinhas passado a noite, agarrado a um ramo de oliveira, bem no seu alto. Não te lembras do dia, mas sabes que era Setembro. Chovia água que Deus a dava. Mas os cães não se queriam dar por fracos e só se calaram a mando de quem por ali, mandava.
-Quem está aí?
-Cala-te Zingo, Cala-te Vara!
-Xou… Sentai-vos.
E eles sentaram-se. Lá bem em baixo, olhando para o cimo da Oliveira. Onde te encontravas, descalço e encharcado. O pânico pelos cães, tinha sido substituído pela apreensão que começaste a sentir, por aquela imponente silhueta. Depois de uns breves instantes de silêncio, o homem baixou os canos da caçadeira para te poder examinar melhor.
-Quem és tu, rapaz?
-E o que fazes aí especado?
Que andavas à procura de trabalho e que te tinhas perdido, na escuridão da noite. Que não sabias onde estavas e que as tuas intenções eram honestas. Que tinhas fome, frio e medo, dizias. Mas só querias trabalho.
O homem olhou para ti, depois para a enxada que jazia deitada junto ao tronco da Oliveira, enquanto alisava a sua extensa barba.
-Se é trabalho que procuras, estás no sítio certo, rapaz. Anda daí.
Foi assim que, sem te dares conta, depois de sorveres, de uma malga, um caldo de sopa servido pelo encarregado da quinta, te viste a transportar, encosta acima, os cestos de vime repletos de cachos de uva. Até aos carros de bois que aguardavam, impacientes, no cimo do monte. E eram tantas as uvas! Mas tu eras novo. E tinhas força. E vias o Sol. E as mulheres cantavam, enquanto colhiam meticulosamente, as uvas das videiras.
Nas minas eras só tu e aquele tenebroso medo pelas profundezas da terra. Nas minas sentias-te mais perto do inferno.
Ali, quando a noite chegava, desenhavas os teus olhos na Lua e, ao som do uivo dos lobos, sonhavas com o mar. E com os afectos. Não os conhecias, mas metias as mãos nos bolsos e agarravas-te à esperança que trazias contigo.
Ali havia o Sol. E a Lua. Talvez se andasses um pouco mais, encosta fora, desses de caras com o teu olhar afogado no mar. E as suas ondas fossem dóceis o suficiente para apaziguar esses sonhos que não te largavam.



III

As estadias da mãe no hospital foram sendo cada vez mais frequentes. Depois de saber a razão do seu sofrimento, mudei-vos para minha casa, aproveitando os dias de um seu internamento para proceder a algumas obras. Mandei fazer um quarto, espaçoso, e uma casa de banho, com os requisitos necessários para acomodar uma cadeira de rodas. Porque sabia que ela iria ser necessária. Ela e tu, pai. E eu.
Era Outono, as folhas, amarelecidas, caíam das árvores, os dias tornavam-se mais curtos e a minha melancolia, maior. (A dor, essa, pertencia por inteiro à mãe, nesta altura já medicada com morfina.) Era como se tivesse todo o peso do mundo nos meus ombros. Todos sabemos que as doenças terminais são dramáticas, mas só quem as atenta, dia após dia, consegue valorizar o desgaste e a aflição, o revés que atinge a vida dessas pessoas. A descrença vai minando a fé, o desânimo vai obstruindo todo e qualquer objectivo que antes, se tinha para a vida. E sem um objectivo, a vida deixa de fazer sentido. Foi com estes pensamentos, pai, que decidi não vos inteirar da realidade. Assumi essa responsabilidade, mas ainda hoje me interrogo se tinha o direito de o fazer. Simplesmente, não vos queria privar da fé nem da esperança. E não quis aumentar o peso do fardo que já carregavas. Contava contigo para cuidares da mãe na minha ausência e, sabendo-te incapaz de fingir, irias paralisar quando te precisávamos diligente.
Contava contigo e com a cadeira de rodas, apenas. Vimo-nos aos quatro sozinhos, abandonados à sorte madrasta, desapiedada. Até o gato, menino dos olhos da mãe, se viu na pele de enteado em casa de muitos filhos.
Não foi assim com surpresa, que nos começámos a aperceber do distanciamento das pessoas antes próximas, e a quem eu ia contando aquilo que vos escondia. Salvo algumas excepções, uma a uma, dia após dia, tornavam-se invisíveis ao olhar ávido de quem procura consolo numa simples palavra de apoio.
Restávamos nós. Tu e eu. E a cadeira de rodas. E o gato, menino dos olhos da mãe.
As horas que a mãe definhou, naquele quarto, foram as mesmas que tu passaste junto ao seu leito. Definhando também. Com a diferença de que agora, durante as noites, me tinhas por perto. Para lhe mudar a fralda, para espantar “aquelas coisas” que se agarravam ao tecto e que a assustava, fruto da sua imaginação imbuída pela morfina, para a mudar de posição, na cama, tantas eram as dores em todos os ossinhos do seu debilitado corpo, para lhe dar banho, para a convencer a tomar a medicação, algo a que se opunha terminantemente. Colocava os comprimidos na minha palma da mão e ela, com o copo de água na sua, ia escolhendo aqueles que lhe pareciam familiares. O dos diabetes, que já o tomava a alguns anos, era o primeiro que escolhia. O da tiróide, pequeno, redondo e vermelho, agarrava-o com os dedos, vagarosamente, tremulamente, e ingeria-o de seguida. Aos restantes, fitava-os, tentando descortinar de entre eles aquele que a sua mente repelia. Porque a fazia dormir. E ela tinha medo de não acordar. Assim, aquele ritual diário transformou-se no nosso tormento privado. Na nossa luta singular. Entre a sua teimosia e o nosso desespero. A sua função renal falida, a tensão arterial elevada, a pulsação acelerada, a febre alta, necessitavam urgentemente dos químicos que jaziam na palma da minha mão. E que por vezes por lá ficavam. Vencidos. Rendidos à determinação com que a mãe fechava os lábios à sua aproximação. “Esse não quero. Sinto-me mal com ele. Quem foi o médico que o receitou? Nunca precisei dele, porque haveria agora de o tomar?” E eu não queria gritar. Nem forçar. Repreendia, insistia, explicava a função de cada um. Mas não queria gritar. Nem forçar. Porque vi, mortificado, como lhe faziam no hospital. Atavam-lhe as mãos à cama, tapavam-lhe o nariz para que a falta de ar a obrigasse a abrir a boca. Tudo feito com aquela postura firme, de quem conhece todos os ardis para vencer as dificuldades da sua profissão. Ela esperneava, debatia-se, chorava. Gritava por mim e eu mesmo ali. Paralisado. Houve alturas em que fugia do quarto para me refugiar no corredor. Sem saber o que fazer, sabia tão só que tinha de a tirar dali. Levá-la para a segurança da minha casa.
Por isso não gritava. Nem forçava. Alisava-lhe o cabelo, dava-lhe um beijo na testa, guardava os restantes comprimidos e reconfortava a tua preocupação. “Não te aflijas pai. Toma-os amanhã. Não é por um dia que lhe farão falta.”
Foi assim que os dias e as noites foram passando. Lentamente. Dolorosamente. O Outono, deu lugar ao Inverno. A dor, deu lugar a uma dor ainda maior. Como se não existisse fim para a intensidade do sofrimento.
Mas sempre contigo a seu lado. E o gato, menino dos seus olhos. Ambos prisioneiros pelo dever a que a vossa fieldade e amor demonstraram.
Porque na tua família, ninguém é deixado para trás. Qual alcateia, que vagueia ao ritmo do elemento mais débil.


  
IV

No ano em que Portugal e Espanha assinavam um tratado de não agressão e em que a Alemanha invadiu a Polónia, dando assim inicio à segunda grande guerra, a tua mãe, alheia aos conflitos do outro lado do seu mundo, dá à luz um rapaz. Em treze de Fevereiro de 1939, nos olhos duros do teu pai havia lágrimas. Foste o primeiro dos seus cinco filhos. Sobreviventes. Dos restantes oito, uns expiaram à nascença, os outros foram falecendo com tenra idade. À força bruta com que a rudeza dos tempos e a crueldade de uma nação, maltratava o seu povo.
O corpo do teu pai, da cor da terra, esbracejou de contentamento. A notícia espalhou-se rapidamente pela aldeia e todos o queriam abraçar. Com largueza, porque a hora era de festa. Mate-se um cabrito, abra-se um pipo, encham-se os copos. Chame-se o padre, que nome já ele tem.
Só não tiveste, pai, foi tempo nem para aprender a andar, quanto mais para ir à escola. Os lameiros esperavam, ansiosos, pelo jeito que mais dois braços dariam nas sementeiras.
Era o centeio, o milho, a batata. Era o feijão, as hortaliças, as vinhas.
Era a carqueja e o restolho para a cama dos animais, a lenha para os rigorosos invernos.
E era a fome. Que ali, vivia-se dos próprios recursos. E só quem estava à altura de catar a sua própria sobrevivência, tinha lugar à mesa. Escassa. Do tamanho da amargura da terra e sacudida pelas longas invernias.
Ai pai… Mas as romarias! As romarias e os arraiais, traziam consigo os bailaricos, os gaiteiros, a alegria espontânea de um povo de coração grande e de mãos calejadas pela rudeza da terra.
Pequenos momentos sempre mágicos, fatias de lembrança por onde, ainda hoje, maças a tua saudade.
Ainda hoje sentes na alma o calor da fogueira, que ardia durante três dias, no largo da aldeia.
Ainda hoje vês na fundura do horizonte, o odor dos fumados, do pão de centeio, da tijela de vinho e a folia das danças e cantares que entravam pela noite dentro.
-Entra na roda e come presunto, homem.
-Ó criatura de Deus, aparelha os machos e ferra-lhes com a carga em cima. Depressa!
-Querias ficar de fora, grande maroto!
E tu, esquecendo por momentos a fome e a enxada, acedias.
E o mundo, todo ali mesmo ao lado, cabia no topo de uma costeira.
-Entre quem é!
-E não faça cerimónia, criatura.
-Sirva-se do salpicão, homessa! E prove aqui o vinho, que é da minha colheita.
Era assim a tua gente. És assim tu, pai.
Gente humilde mas honrada. Gente pobre, mas generosa. Gente de carácter, sem a mesquinhez que a tua dignidade repudia.
Foi com essa ingenuidade que, aos  vinte e dois anos, chegaste à Figueira da Foz para assentar praça. E mal saíste do comboio, os teus olhos foram logo procurar o mar.
Depois de o encontrarem, saíram de ti para se estenderem na sua imensidão.
É isto o mar? Perguntavas-te, maravilhado, enquanto os esperavas. 
Mas eles não queriam saber de ti. Demoravam-se, perdidos por entre aquele sonho que te obrigou a correr, de bilhete na mão, para a estação de comboios, em Vilar Formoso, quando recebeste guia de marcha.
Quis então o destino levar-te um pouco mais abaixo, no relevo deste País à beira mar plantado. Depois da teres feito a recruta, empurraram-te para dentro de outro comboio com destino ao RAL4, em Leiria. Este Centro de instrução militar, sobretudo para pessoal destinado ao ultramar, situava-se de um lado da encosta do castelo. No outro, nas tuas fugas do quartel, encontras-te o Sol desenhado naquele sorriso largo.
De mãos na cintura e de trouxa na cabeça, as graçolas, naquele teu modo estranho de as dizer, faziam com que a mãe deixasse cair, no chão, a roupa acabada de lavar.
Primeiro, envergonhada, não retorquia. Mas a tua insistência fez com que a sua timidez te olhasse. Primeiro vagamente. Depois nos olhos. E foi aí que esqueceste o mar. Colocaste o bivaque na cabeça e foste buscar a esperança ao bolso. De novo. Que ela tinha nascido contigo, e ainda hoje não te larga.
Já tinhas visto o mar. Acabaras agora, de conhecer o afecto.
Nem mesmo a resistência da sua família aos teus modos provincianos, arrefeceu aquele amor que nunca mais se apagou.
Quando a noite se aproximava e a hora de regresso ao quartel vos afastava, dizias-lhe em jeito de promessa:
-Quando estiver deitado, na camarata, vou imaginar que o Castelo se mudou para outro lugar. Estenderei a mão ao encontro da tua e dormiremos com elas dadas.
 E a mãe, doideira da tua vida, do outro lado da encosta. Acordada noite fora. Sentindo na sua, a tua mão. Carregada dos sonhos que a esperança fazia nascer.




V

O mês de Janeiro trouxe consigo a geada e as noites frias. E as insónias, pelas noites mal dormidas. Pela vontade férrea da mãe em me ter, também a mim, a seu lado. E para que tal acontecesse, qualquer pretexto servia. A fralda molhada, quando se encontrava limpa, o peso dos cobertores, que lhe magoavam as pernas, a almofada que era demasiado baixa, a máscara de oxigénio que lhe sufocava o respirar.
E tu, pai. Que não sabias fazer nada. Que me chamasses, depressa.
Que eu sim, sabia compor-lhe a cabeça sem lhe magoar o pescoço, regular a quantidade exacta de oxigénio e sobretudo, afastar aqueles demónios que saltitavam por entre as paredes do quarto.
E tu pai, que sim. E eu. Só o gato, menino dos olhos da mãe, se colocava de lado.
Pressentindo a azáfama desajustada às suas horas habituais de sossego, sentava-se a um canto do quarto, de orelhas avivadas, naquela sua pose de comiseração. E eu, quase que jurava tê-lo visto, por vezes, chorar.
Talvez as lágrimas que me tinham já fugido, as tivesse ele encontrado.
Pedisse-me a mãe a Lua e tinha eu ido busca-la. Só a vida, se encontrava demasiado longe daquele quarto onde definhávamos, para eu a intimar.
Numa madrugada desse Mês de Janeiro, acordei sobressaltado. Nesse dia, não foram os teus chamamentos que me fizeram saltar da cama, mas sim a falta deles.
Ouvi o relógio dar cinco badaladas e o coração acelerado empurrou-me pelas escadas abaixo, até junto do vosso quarto.
Chagado lá, ouvi apenas o bater do meu coração, entrecortado pelo ruido que a máquina de oxigénio fazia. Espreitei, a medo. Encontravas-te sentado na cama, olhando a mãe, que dormia. Fizeste-me sinal. Com o dedo na boca, pedias-me que não fizesse barulho. Falámos baixinho, enquanto o gato se roçava por entre as minhas pernas. Coloquei a mão por cima do peito da mãe e senti-a respirar. Tu sussurravas-me palavras de ânimo, pelo repouso da noite. Que as dores deveriam estar a diminuir, finalmente. A Primavera não tardaria, e com ela a mãe rebitaria. Que eu iria ver. Deus era grande!
Destapei, com cuidado, a mãe, fitei-lhe os pés e vi-os inchados.
Que sim, respondi. Deus era grande…
Agora dorme também tu, que bem precisas, pai.
Fui de novo deitar-me, sem conseguir adormecer. Por volta das oito horas, altura em que vos servia o pequeno-almoço, a mãe permanecia a dormir.
Parece um anjinho, disseste tu, olhando-a com ternura.
Não a acordes, que depois eu sirvo-lhe o pequeno-almoço.
Deixa-a descansar, que estas noites têm sido horríveis. Só Deus e nós sabemos, o quanto ela tem passado.
Acedi, a custo. Depois de te ver beber um copo de leite e comer uma torrada, saí para o escritório.
Por volta das onze horas, liguei para o teu telemóvel e quando me informaste, com agrado, do sossego da mãe, estarreci.
A mãe, nessa altura, já se encontrava em pré-coma, tendo acordado apenas no hospital, local dos seus horrores.
No dia anterior, tinha sido a ultima vez que vira aquele quarto. Mandado fazer para ela. E o gato, menino dos olhos da mãe. E os netos, orgulho das suas riquezas. (Era sempre com vaidade que mostrava as suas fotografias. Olhem tão lindos! )
Quando, finalmente, consegui que me deixassem entrar nas urgências do hospital, deparei-me com a mãe amarrada, de novo, a uma maca. No corredor. Abandonada à sua sorte, esquecida por entre uma multidão de outras macas. Coberta de sangue, por ter arrancado, do braço, a agulha da transfusão de sangue.
Mas tu não viste, pai. Não me viste a correr em sua direcção, prevendo o pior.
Querias ter ido, mas não deixei. Que ficasses. Que saísses daquele “eterno” quarto e fosses distender as pernas. Pois quando a mãe voltasse, ficarias de novo prisioneiro naquelas quatro paredes. Acorrentado à mãe.
Mas ela já não voltou.
Faleceu, seis dias depois, em Tomar. Nos cuidados paliativos.
Nesse dia, pai, choraste.
Depois de finalmente, te revelar as causas do sofrimento da mãe, choraste de novo. Perdeste a cor e o ânimo.
Sentiste a alma vazia. A alma e os bolsos, já sem a esperança que sempre te ajudou a seres maior que toda a crueldade com que o mundo te magoou.
No dia do seu funeral, de regresso a casa e contigo a meu lado, olhei o castelo enquanto conduzia. De coração destroçado, pensava no sofrimento a que, nos últimos meses tinha assistido. E se algum dia iria conseguir esquece-lo. E senti a sua encosta, aquela mesma encosta onde tu e a mãe se conheceram, dizer-me, com modos de aviso, que ainda não tinha visto tudo.
Nem eu, nem tu, pai.
Nem o gato, menino dos olhos da mãe.

Rui Girão

(continua… num qualquer post do futuro)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida é assim.









O sol ameaçava romper timidamente no horizonte cravado nas suas costas, quando fechou a porta de casa e se dirigiu meio curvado, rua fora, deixando para traz o sorriso da madrugada, esculpido em mais um nascer do sol. Em que nem sequer reparou, distraído que ia nos seus pensamentos. Nas suas ânsias.
De quando em vez, a vida interrompia-lhe a serenidade, varrendo o chão que pisava, à força de sucessivas tempestades. Chegavam sem avisar, precipitadas, em forma de vagas, fazendo-lhe oscilar o corpo e arrastando-lhe o espírito para a margem do precipício. O vento uivava, furioso. O céu tornava-se negro e a turbulência era tão intensa que o obrigava a fincar bem os pés no chão para não tombar.
Em vão, por vezes.
Mas todos partiam do pressuposto de que era forte, sem se darem conta de como era para si árduo, cada vez mais árduo, reerguer-se.
Ficavam as nódoas e os arranhões, as amolgadelas e os cortes, patentes na alma, e que mais ninguém valorizava. Ou visualizava.
Trocando aos poucos aqueles pensamentos inquietantes pela necessidade de se afastar dali, acendeu o primeiro cigarro da manhã e lançou um último olhar à casa de onde acabara de sair.
Tinham lá ficado, para além de muitas das suas recordações de infância, todo o espólio dos seus pais, agora convertido em trapos e farrapos, amontoados pelo tempo e pela inquietação que sentia, sempre que se propunha deitá-los para trás das costas. Despejá-los no caixote do lixo. Deixava-se assim, levar pela intuição que lhe segredava, qual grilo falante, não ter chegado ainda a altura de apagar os traços das suas dores. Mesmo quando já não passavam de ruinas cobertas de mofo.
Olhou para o livro que trouxera da sua casa de infância, enquanto caminhava. Tinha-o encontrado por entre outros livros amarelecidos pelo esquecimento. Na capa, em letra vigorosa, desenhada pelo seu punho quando ainda juvenil, leu sem se dar conta, em voz alta: “Folhas Soltas”.
Abrandou o passo, abriu uma página ao acaso e leu, desta vez para si, o que, lembrava-se, não passavam de fragmentos de devaneios. Escritos ao ritmo com que a ilusão lhe foi pregando rasteiras:

“Ao longo do tempo traçam-se linhas de rumo sempre na esperança de melhorar o amanhã e esquece-se que em menos de nada, o imprevisto toma conta de todas as aspirações.
Adia-se o presente a troco de um futuro ilusório, onde se formulam expectativas e se compõem desejos.
Ao invés de se viver cada instante, único, hipoteca-se a Vida em nome de um dia onde o Sol, cansado de esperar, afinal se esvaiu por entre um tempo que já não pertence a este tempo.
Esgotado, também ele quis aspirar outros rumos onde realmente o considerassem.
E quando se toma consciência da realidade, exclama-se em tom de resignação:
A vida é assim.”

Fechou o livro, devagar.
O coração apertou-lhe os passos até que se sentiu imobilizado. Preso ao chão.
Afinal, a Vida já o tinha feito tombar tantas vezes, que até já se tinha esquecido da última vez em que tinha caminhado sem receio de tropeçar. Tinha-se adaptado involuntariamente ao infortúnio. Como se fosse ele a viver por si.
Voltou para trás, decidido em concretizar os intentos que o tinham levado a passar aquela noite na casa que fora dos seus pais.
Posso não saber o que Deus me reservou hoje. Mas amanhã poderá ser tarde para entender os seus propósitos, pensou à medida que ia enchendo um saco de plástico com as peças de roupa, sapatos, chinelos, cobertores, lençóis, e algumas bijuterias espalhadas pelos móveis, tantas vezes antes, usados e cuidados pelos seus pais. E que agora, depois do seu falecimento, não passavam de memórias. Memórias de um tempo em que o Sol brilhava por entre tanta coisa sempre nova. Tudo sempre polvilhado de sonho e deleite.
Esfregou os olhos, como que se obrigasse a acordar.
Hoje, podia não saber o que Deus tinha reservado para si. Mas sabia que se impunha fazer o seu luto.
Reerguer-se uma e outra vez mais. Naquele movimento aparente, simulacro do movimento real onde a Vida é mesmo assim.
Impiedosa.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Pelo que passo, faz de mim o que sou.



(Imagem:net)



Tirou os pés da areia, enquanto se sentava nas tábuas de um pequeno barco de pesca com ar de abandonado, perdido por entre a brisa de uma manhã acabada de parir.
Percorreu as redondezas com aquele olhar saudosista de quem, depois de muitos anos, regressa ao lugar onde cresceu.
E viu perto de si, por entre a recordação, o vulto de uma criança. Curiosa.
Também ela percorria com o olhar, o horizonte deixado pela imensidão do mar, enquanto cogitava na origem do vento, da mesma forma que teimava em subsistir na certeza de lhe conhecer o rosto.
A mãe chamava-o de teimoso. Porque não se calava até obter resposta às suas dúvidas. Mas era apenas a curiosidade a moldar-lhe as feições com que confrontava a espuma das ondas do mar, sempre que ela se desfazia aos seus pés.
Para onde foste?
Onde vais?
À falta de resposta, remexia com os seus pequenos dedos a areia, procurando encontrá-la. Mas ela era esquiva. Escondia-se por entre a pressa de chegar ao seu destino.
Rapidamente trocava o interesse com a sorte da espuma, pelo formato de uma pequena pedra, encontrada na areia remexida.
De onde vieste?
Quem te trouxe?
A pergunta era o alimento da sua alma. A pergunta intrometia-se em cada olhar que fazia ao cada vez maior desconhecido com que, dia após dia, se confrontava. A pergunta saciava-lhe a bisbilhotice mas não matava a fome que sentia, assim que digeria a resposta.
Ávida, era como se a pergunta morasse dentro da sua língua e a empurrasse ao encontro das exactas palavras que deixava cair a todo o instante.
O que é isto, o que é aquilo.
Para onde vai, de onde veio.
Do que é feito, para que serve.



Colocou os pés descalços na areia húmida, levantou-se do pequeno barco de pesca e encaminhou-se para junto das pequenas ondas, permitindo que elas molhassem a bainha das suas calças.
À medida que expulsava do seu olhar as lembranças do menino que já tinha ali sido, pensava no motivo que o trouxera, depois de tantos anos, à sua terra natal.

Existia uma pergunta para a qual nunca tinha encontrado a resposta:
Quem eu sou?
Era uma pergunta que repetia exaustivamente, até o pensamento lhe ficar em carne viva e a cabeça lhe parecer que ia explodir.
A cada momento que obtinha resposta a uma incerteza, a cada degrau que subia na sua caminhada através do conhecimento que os anos lhes iam oferecendo, aparecia, altiva, a falta de resposta à sua derradeira pergunta.
Quem eu sou?
Era como se quisesse alcançar o inalcançável.
Até que, naquele preciso momento, se fez luz. Foi como se tivesse nascido dentro de si uma vaga de conforto, por onde se deixou misturar.

Sorriu, primeiro. Para depois soltar uma gargalhada, que fez com que um bando de gaivotas levantassem de imediato voo.
Tinha percorrido cidades de países infindáveis. Aldeias de terras longínquas.
Tinha subido a montanhas para segredar aos ouvidos das estrelas a sua inquietação. E descido a vales para procurar a semente das suas dúvidas.
Quando afinal, a resposta estava ali. Sempre ali tinha estado. À sua espera.
Tinha acabado de alcançar, assim do nada, a liberdade que a resposta à sua dúvida existencial, achava, lhe iria proporcionar.
Agora que já sabia quem ele era, já não mais seria prisioneiro daquele barco de dúvidas por onde tinha navegado.
Afinal, navegar é por vezes ficar no cais, pensou.
E enquanto olhava a espuma das ondas do mar desfazer-se por baixo dos seus pés descalços, disse para si:
Não importa para onde vai a espuma, mas sim por onde passa para lá chega
r.


Rui Girão