segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O tempo.


Na noite de 25 e madrugada de 26 de Novembro de 1967, há 49 anos, uma grande tempestade assolou o país.
Na região da Grande Lisboa, mais de 500 pessoas perderam a vida, perto de 900 foram desalojadas e verificou-se um sem número de danos em infraestruturas, nomeadamente pontes, estradas e edifícios de diversa natureza.
A passagem de um sistema de baixa pressão sobre a região caraterizado por uma forte convecção e forte instabilidade, associada a uma atmosfera rica em vapor de água, traduziu-se num evento extremo cuja quantidade de precipitação registada num período de 4 a 9 horas foi compatível com um período de retorno superior a 100 anos.
A precipitação total ocorrida foi observada essencialmente num período de 5 horas, o que em algumas estações correspondia ao seu valor médio mensal.
A estação de São Julião do Tojal em 5 horas registou 110,6 mm (entre as 19 e as 24h), tendo tido um pico de 30 mm entre as 22 e as 23h da noite de 25 de novembro.

Nessa noite, entre as 21 e as 22h, foram registados 42 mm em Sassoeiros, 60 mm no Monte Estoril e 33 mm em Sintra/Pena.
A elevada quantidade de precipitação originou este evento de cheias rápidas (as chamadas flash floods), no entanto o que o tornou num dos mais mortíferos em Portugal, foi principalmente a construção inadequada em leitos de cheia e a coincidência com a hora de pico da maré alta.
A maior parte das vítimas, residente ao longo de bacias de pequenos rios e ribeiras da região, muitas em habitações precárias e clandestinas, foi apanhada durante o sono, o que se traduziu num aumento substancial de mortos e desalojados.
Este evento corresponde ao segundo mais intenso de precipitação em 24h para a área da grande Lisboa entre 1950 e 2008, com uma média de precipitação de 86 mm.

O evento mais intenso de precipitação na mesma área ocorreu em 1983 com média de precipitação de 95 mm, porém com impacto consideravelmente menor.
(Fonte: Instituto Português do Mar e da Atmosfera)

sábado, 26 de novembro de 2016

Gente vulgar.


Recordo-me de ter lido há muito tempo, um livro em que uma das suas personagens informa a mulher que no dia seguinte se encontrará ausente, por motivos profissionais.
Só que desaparece sem deixar rasto, mudando-se para uma rua perto da sua de onde, durante muitos anos, observa sem ser visto a mulher e todas as pessoas que faziam parte do seu anterior quotidiano.

Durante o seu isolamento, constata que a vida na sua cidade continua igual.
As pessoas levantam-se para irem trabalhar, vão à missa ao domingo, encontram-se no café para conversar.
O mundo pula e avança, como se nada nem ninguém tivesse dado pela sua falta, como se nunca tivesse existido.
Ou melhor, ele existir existiu, mas tinha atravessado a vida como um fantasma.
A reflexão do escritor recai assim sobre o pouco que a sua personagem tinha representado no mundo. No seu e no dos outros.
Cumpridor, responsável, um bom cidadão, um bom marido.
Mas mais nada do que isso.
Viveu sem sair das profundezas do seu anonimato.
Uma pessoa vulgar portanto.

Contudo, não creio que o anonimato seja condição suficiente para a vulgaridade.
Pois para mim, que já tenho esta idade toda e já perdi a ilusão de contribuir para um mundo um bocado melhor dou-me por satisfeito se, quando me ausentar por motivos de “força maior”, não deixar para trás um rasto de escombros provocados pelo meu caos enquanto gente.
Vulgar? Até posso ter sido, ou estar a ser.
É que esta gulosa ideia de se poder ser responsável e um bom cidadão e ao mesmo tempo vulgar pelos padrões da fama e da notoriedade, está em perfeita harmonia com os valores que vou constatando me serem caros.
As luzes da ribalta que fiquem reservadas aos distintos tarados do sucesso financeiro e da excelência social.
E que as suas obras extraordinárias sobrevivam ao apagar do tempo.
Do seu e de todos os que irão disputar freneticamente um naco do seu legado.
Eu, tal como a personagem vulgar do livro que li há muito tempo, não anseio ser mais nada do que, enquanto por cá andar, ser um bom filho, um bom pai, um bom amigo, um bom colega, um bom cidadão.
E quando a minha hora chegar, me poder orgulhar de comigo ninguém nunca ter sido deixado para trás.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Vai passar.



 

Vai passar, tu sabes que vai passar.
Sabes, porque já sentiste na carne e na alma, que nenhuma dor sobrevive o tempo todo.
Talvez não para a semana, ou para o mês que vem.
Mas quando menos esperares, a frieza com que a ordem das coisas é feita, te empurrará para uma nova estrada qualquer onde o Sol brilhará da forma como o recordas.
Mesmo que, entretanto, a continuidade da Vida não espere por ti, será tua aliada a paciência.
Fumarás muito, dormirás pouco.
Olharás à tua volta e a paisagem dos dias será sempre e sempre de ausência, pelo que recordas e pelo que sonhas.
Então fingirás, virando as costas ao espelho cru, que os teus olhos ainda têm a graça de quando, antes tudo fazia sentido.
Para disfarçares a dor, quando os ventos do desespero roçarem com violência os teus ombros, contarás nos dedos, dia após dia, as horas que faltam para que eles terminem.
E porque são tantas, desistirás de as contar.
Assim como desistirás de procurar uma razão para justificar o que te acontece na Vida, pois já entendeste que o Mundo não é para ser justo.
Nem as coisas que são assim, se o não fossem tornariam necessariamente a tua Vida menos agreste.
Restam-te os cigarros, que afagas com esses mesmos dedos.
E a angustia, que o Mundo é o que é e não o que queríamos que ele fosse.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A letra maiúscula no Homem.


Se pensas que as mulheres são todas iguais é porque não estás bom da carola.
Ou se admiras uma mulher apenas pelas suas linhas e curvas e pernas e seios e rabo e lábios é porque as desejas apenas como um meio e não como um fim.
É que, como tudo na vida, umas têm e outras…
Bom, talvez até também tenham, mas não é para ti.
Umas têm no seu intimo uma magia própria de fazer acontecer, outras têm no seu olhar a severidade que te fazem esquecer que vales a pena.
Umas usam grandes palavras para te dizerem pequenas coisas, outras, pequenas palavras são suficientes para enaltecerem o que de grande há em ti.
Umas têm nos ombros o amparo para os dias em que te esqueces de ser forte como todos os homens têm que ser, outras reservam-te um chega para lá que eu não sou tua mãe.
Umas têm no abraço o porto seguro para quando sentes aquela vontade absurda de te refugiares em confidencias, outras usam o botox irresistível ao tacto animalesco de uma farta conta bancária.
Umas têm o sol dentro de si, que te irradiam a segurança suficiente para realizares os teus sonhos, outras são a força bruta de uma tempestade que te encharca a alma em dúvidas e receios.
Que passam a comandar a tua vida.
Porque tu, que pensas que as mulheres são todas iguais desde que tenham entre as pernas uma vagina onde possas coitar sempre que te apeteça, nunca deixarás que sejam elas a comandar.
E deixemo-nos de tretas, na intimidade da consciência de cada um, mesmo que nunca o admitamos na tertúlia de amigos à roda das bejecas, percebemos que a letra maiúscula de cada Homem é proporcional à integridade da sua Mulher.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

(In)Tolerância.

 

A imperfeição do mundo começa na terrível e opressiva fatalidade de não existirem líderes com uma visão que incuta nas sociedades, através do seu exemplo, valores e princípios que valorizem as suas ações enquanto seres humanos.
O respeito, a justiça, a liberdade, a bondade e sobretudo a tolerância estão a ser substituídos pela arrogância, xenofobia, hipocrisia, indiferença pelo próximo e numa apetência doentia para o show off, cultivando uma histérica vulgarização do ego.
Alguns dizem que este é o novo mundo, a nova ordem.
Mas não.
Este é o mundo mais velho que existe.
O mundo do ódio fratricida que durante séculos conduziu a humanidade a catástrofes monstruosas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Surpresa, ou talvez não.



Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.
Um politico sem experiencia, imprevisível, populista, grotesco, inculto, machista, consegue ocupar um dos cargos mais influentes do mundo.
Mas não vale a pena antecipar um apocalipse. A democracia americana não deixará de ser a democracia americana, com a limitação de poderes que a caracteriza.
Contudo, irá ser interessante observar se os Estados Unidos vão mesmo construir um muro na fronteira com o México, proibir a imigração muçulmana, rasgar os tratados de comércio e acordo com o Irão, aceitar a posição de Putin na Síria ou fazer frente às resoluções da NATO.
E sobretudo, se irá inspirar movimentos populistas e nacionalistas por esta Europa fora.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nada de novo debaixo do Sol.

Arcimboldo - Outono
 

São as pensões que têm um aumento brutal mas afinal esse aumento resume-se a uns míseros poucos euros, é a novela da CGD que se arrasta há mais de dois meses sem sair do mesmo sitio, são os licenciados sem licenciatura e já agora, sem vergonha nenhuma na cara, são as infindáveis eleições americanas de onde vai sair o pior presidente da história de uma das maiores potencias do mundo, são os analistas de futebol que, quais psicopatas, preenchem horas e horas de tempo de antena a explicarem o que não tem explicação, são os milhares de refugiados que continuam a chegar à Europa fugindo de guerras sangrentas, mas que tentam a todo o custo asilo nos países que alimentam e promovem as guerras de que fogem.
E é o frio que arrasta o calor do Sol para debaixo de um cada vez menos novo Outono.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Lenda Cherokee



 
Conversa entre avô e neto:

Filho, dentro de cada pessoa há uma batalha entre dois lobos.
Um lobo é mau, bravo, orgulhoso, ciumento, preguiçoso e incompreensível.
O outro é bom, gentil, cheio de amor, autocontrole e humilde.
Esses dois lobos estão lutando constantemente.
O menino pensou e perguntou:
Avô, qual o lobo que vai vencer?
O avô sorrindo respondeu:
Aquele que você alimentar.


 

 


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Juízo final.




Não peço misericórdia às promessas perdidas nos limbos
Nem perdão aos desgostos que esperam a sua hora
São pobres as esperanças que vagueiam pelos meus ombros
Por isso me abrigo no presente, mesmo que tombado pela amargura.

Não peço contas à Vida que se desenrola neste novelo
Em novelas tecido pelas mãos rudes de um destino devorador
Nem ao inevitável imprevisto tortuoso me calo
tão pouco fico abismado pelo gáudio de um momento de esplendor.

Não peço justiça às definições perversas com que os meus pensamentos
São inflamados pelos pseudo aventurados na arte de julgar sem mácula
persisto no propósito de não especular no alheio os seus intentos
caminho por entre a minha consciência, sem à dos outros pedir esmola.

Não peço compreensão pela estima que a saudade encontrou neste olhar
Nem simpatia pelos sonhos onde teimosamente me vou iludindo
São belas as flores que na primavera plantei e me dispus a cuidar
Amarro-me às cordas do tempo estreito e esguio, onde vou adormecendo.

São contas de outro rosário, as meças que no fim do meu padecimento
Serão julgadas, sentenciadas e enterradas neste mar de espuma
Se o que leio no catecismo da minha compreensão for levado a julgamento
No enterro deste corpo já vazio de pecado, restará ainda uma alma.

Rui Girão

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Sem significado.




A Vida é feita de uma beleza e poesia esmagadora.
Até mesmo no fulgor com que a Natureza desconstrói, sem qualquer esforço aparente, a esperança à existência, mostrando o quanto cruel ela pode ser.
Como um farol que tenta salvar a noite da escuridão, também a Vida acaba por nos mostrar a insignificância do significado que lhe possamos querer dar.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Só um segundo.


Um homem está a rezar a Deus.
- Senhor, gostaria de te fazer uma pergunta.
O Senhor responde:
- Não há problema. Podes perguntar. 
- Senhor, é verdade que, para ti, um milhão de anos é apenas um segundo?
- Sim, é verdade.
- Bem, nesse caso o que é um milhão de dólares para ti?
- Para mim, um milhão de dólares é apenas um cêntimo.
-Ah, nesse caso, Senhor - diz o homem -, podes dar-me um cêntimo?
- Claro - responde o Senhor -, só um segundo

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Flexibilidade.



A flexibilidade exigida ao Ser Humano na era moderna 
faz com que a importância de valores fundamentais como a honestidade, 
a lealdade ou até a dignidade sejam colocados em plano marginal 
das suas prioridades.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Por esse Mundo.


A Costa Rica conseguiu a façanha de estar em funcionamento mais de dois meses consecutivos sem recorrer a combustíveis fósseis (76 dias).
Já em 2015, a Costa Rica tinha passado 299 dias sem queimar petróleo, carvão ou gás natural, depois de um grande investimento por parte do Governo.
Proeza assinalável, digna de registo.aqui

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Luta.

Elliot Erwitt ,NY, 1950


A vida é feita de combates e de sucessivas batalhas.
Nelas travam-se conflitos, violam-se acordos, trocam-se acusações
e até se renegam princípios.
Mas para não se perder a razão, quem luta com monstros deve ver
se não se torna também num.


sábado, 3 de setembro de 2016

O suspiro dos oprimidos.




Há aquele momento estranho que antecede a fúria.
Instala-se num aperto, numa quase dor, que se defende e luta e quase que manda numa pessoa.
Para logo de seguida ela chegar nas garras de um fantasma interior.
Manipula a escolha tornando a quem toca, refém da sua própria vontade.
Avassaladora, desfaz a dor e naquele momento estranho a ordem e a desordem, a razão e o irracional manipulam-se numa tensão onde eu sou eu mas já sem o ser.
Agora, é a fúria com a sua força assustadora que se nomeia sentido de vida.
E por um momento estranho e estúpido é ela, a fúria, o suspiro dos oprimidos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

(Permanente) calamidade.

 
 
Depois dos incêndios e antes das inundações, temos um País entregue a si próprio, com caminhos por limpar, florestas por cuidar, falta de guardas florestais, reclamações aos Municípios e às Freguesias por resolver, numa fuga para a frente que beneficia apenas quem transgride.
É que enquanto os crimes ao território, publico ou privado, não forem tratados com o mesmo vigor e rapidez com que são punidos os assaltantes dos bancos, seremos sempre uma pátria de munícipes isolados ou pelo fogo ou pela água, ao sabor da demagogia dos políticos, cujos padrões não ultrapassam a algibeira dos seus interesses pessoais.
Políticos que do seu País, a única realidade que conhecem, para lá das eleições, são os debates.
Pelo poder e para a fotografia.

(In)paciente.



Se queres que o tempo faça o seu trabalho, tens que lhe dar tempo.
Aquele que tens e aquele que terás de encontrar.
Aí, até onde menos esperas ele, o tempo, terá tempo de se te mostrar.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Identidade.

Vladimir Kush



Na solidão do ócio, alheio da vida, são as cicatrizes que me coçam o olhar.

E quando as toco, surgem vindas do mais obscuro recanto da memória, imagens nítidas. 
Tão nítidas, tão claras, tão presentes, que me desnudam o espírito e me desatentam o raciocínio. Assomos de lembranças onde fui convertendo o tempo em breves momentos de alegrias. Outro, em rasgos de agonias.
Como se a vida não passasse de uma modorra incurável de imprevisíveis esperas.
Uma teia construída de instantes, insensíveis ao desejo de serem sempre as marés, calculadas pela Lua dos meus sonhos.
Mas quando menos espero, sou impiedosamente abalroado pela puta da realidade e não tenho como escapar. Sinto-me sugado, paulatinamente, de todos os moinhos de vento erguidos pela força das minhas quimeras.
Mesmo assim, neste pobre reino que é a minha vida, enquanto tiver um olho, continuarei a ser rei. Ainda que montado numa mula velha e estéril, secarei as lágrimas e sensatamente, permitirei que o tempo sare as feridas.
Mesmo que as cicatrizes nunca se apaguem, pois são essas, sei hoje, que moldam a minha identidade.


Rui Girão

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Testemunho









I

Decorria o ano de 2009, quando, em Setembro, recebi o resultado de um centigrama ósseo que a mãe foi fazer, dias antes, a Coimbra.
Depois de vários meses em que a sentimos dia após dia, cada vez pior e de um internamento no Hospital, nada, mesmo assim, fazia prever tão dramático desfecho.
Fui levantar o relatório do exame, pedido com urgência, a uma clinica em Leiria, depois do almoço. Saí do escritório com o coração em ânsias, mas sempre com a esperança de encontrar lá escrito um daqueles nomes esquisitos, de uma qualquer doença que, depois de pesquisado na internet, surgisse a descrição do tratamento aconselhado. Mas não. O resultado foi outro.
Tu não te lembras, pai. Porque estavas em casa. Naquela correria entre a cozinha e o quarto. Entre os chás e os panos de agua fria que colocavas, com carinho, sobre a testa da mãe, pouco tempo te sobrava para cozinhares uma canja ou preparares uma torrada. Que a mãe rejeitava. Ou porque o pão estava queimado ou porque já se encontrava fria. E lá ias tu, no teu passo apressado, pacientemente, colocar na torradeira duas outras fatias de pão.
Nessa altura a mãe já delirava bastas vezes. Assim, nem quando, mesmo que por instantes, ela fechava os olhos e dormitava, tu descansavas. Sentavas-te perto do seu leito e agoniavas com os gemidos que rompiam das suas entranhas. Olhavas em volta e perguntavas a ti mesmo o que seria de ti. Olhavas em volta e sentias-te sozinho, nessa luta inglória que travavas contra uma doença que vias sem conhecer. Devia ser gripe. Ou andaço. A febre, as dores no corpo, os delírios, os vómitos, as cólicas. E eu que não chegava. O tempo teimava em parar quando tu o querias apressado. Porque a minha chegada, a minha presença, era o teu único escape. A tua única folga que tinhas nos teus amargurados dias. Mesmo que por breves instantes.
Por isso, pai, tu não te lembras. Porque não estavas lá. Não te encontravas presente quando tomei conhecimento da verdadeira origem das maleitas com que a mãe se lastimava. Nem viste o meu desespero quando não consegui conter as lágrimas que iam caindo no balcão do consultório, para espanto da funcionária que momentos antes, me tinha entregado o relatório dentro de um envelope. Porque um homem não chora.
Metásteses ósseas espalhadas por todo o frágil esqueleto do já muito debilitado corpo da mãe.
Não me perguntes como desci as escadas do prédio, nem como conduzi até chegar ao escritório. Lembro-me apenas de ter telefonado ao médico da mãe e de lhe perguntar se me podia atender nesse mesmo dia. Depois de lhe explicar o motivo, mandou-me ir ter com ele ao seu consultório nas Caldas da Rainha. A consulta serviu apenas para esclarecer o já mais do que óbvio desfecho. Nada a fazer. Poucos meses restavam de vida à mãe.
Fiz o regresso a Leiria, tentando encontrar, enquanto conduzia, uma solução para uma situação onde ela não existia. E, pior ainda, reunir em mim, a força suficiente para vos encarar sem que notassem a angústia onde me encontrava mergulhado. Porque, de uma coisa eu tinha a certeza; nem um nem o outro estavam preparados para tão cruel realidade.
Lembro-me de não ter sido difícil esconder-vos o meu abatimento. O estado de saúde da mãe tinha piorado a tal ponto, que só tinhas olhos para ela. Nem sequer reparaste nos meus olhos vidrados, nem nas lágrimas impunes à minha vontade de as recolher ou sequer estranhaste a falta das minhas palavras de esperança. A urgência era levar a mãe, de novo, para o hospital.



II

As histórias que te ouvi contar, quase todas baseadas em factos vividos por ti, faziam acender em mim um sentimento de amargura pelos tormentos que rodearam a tua infância. Imaginava-me no teu lugar e aí, pai, mesmo tendo pouco, sentia-me com muito, comparado com o tanto que te faltou.
Nasceste em Trás os Montes, numa aldeia rodeada pela Serra, bem lá nas profundezas do interior. Lá, tudo era raro. Lá, tudo era longe. Até os afectos, distantes como o mar. Já tinhas ouvido falar. Em ambos. Mas não os conhecias. Talvez um dia, pensavas. Ficava a esperança, que essa tinha nascido contigo.
Foi essa esperança que te conduziu, sozinho, aos dezasseis anos, por entre as quintas do Douro, agrupadas pelos diferentes quanto inebriantes aromas exóticos, que se desprendiam dos frutos negros e taninos. Eram tantas as uvas! E tu, de enxada e de tamancos às costas, fugias com a esperança no bolso, das minas onde arriaste durante quatro anos. Sabias que o caminho de regresso te levaria à fúria com que o teu pai prometeu receber-te. A cada passo que davas, sentias-te mais longe daquele buraco tenebroso por onde tinhas entrado, todos os dias, com o coração na boca. Tremias exaltadamente sempre que o elevador começava a descer. O teu pai colocava a sua mão por cima do teu ombro e dirigia-te as únicas palavras que tinha para ti. “Força rapaz!” Mas os tremores não passavam. Apenas se não viam tanto, aos olhos dos demais. Por isso, e pela esperança que trazias no bolso, seguias em frente, atravessando de pés descalços os socalcos que moldavam a face dos montes. Lá em baixo, as águas cristalinas do rio espelhavam os imensos vinhedos. Eram tantas as uvas! E os cães. Que demonstravam a sua ligação profunda aos seus donos, quando te faziam subir para cima da arvore mais próxima. Foi assim, contas tu, que conseguiste o primeiro trabalho, depois de vários dias a vaguear, por entre aquela paisagem esculpida pela cultura milenar das gentes da tua terra.
Foi numa quinta em Pinhão. Era já madrugada, quando aquela figura altiva, de caçadeira na mão, se intrometeu entre o ladrar de dois exaltados cães e a tua voz amedrontada, mandando-os calar. Tinhas passado a noite, agarrado a um ramo de oliveira, bem no seu alto. Não te lembras do dia, mas sabes que era Setembro. Chovia água que Deus a dava. Mas os cães não se queriam dar por fracos e só se calaram a mando de quem por ali, mandava.
-Quem está aí?
-Cala-te Zingo, Cala-te Vara!
-Xou… Sentai-vos.
E eles sentaram-se. Lá bem em baixo, olhando para o cimo da Oliveira. Onde te encontravas, descalço e encharcado. O pânico pelos cães, tinha sido substituído pela apreensão que começaste a sentir, por aquela imponente silhueta. Depois de uns breves instantes de silêncio, o homem baixou os canos da caçadeira para te poder examinar melhor.
-Quem és tu, rapaz?
-E o que fazes aí especado?
Que andavas à procura de trabalho e que te tinhas perdido, na escuridão da noite. Que não sabias onde estavas e que as tuas intenções eram honestas. Que tinhas fome, frio e medo, dizias. Mas só querias trabalho.
O homem olhou para ti, depois para a enxada que jazia deitada junto ao tronco da Oliveira, enquanto alisava a sua extensa barba.
-Se é trabalho que procuras, estás no sítio certo, rapaz. Anda daí.
Foi assim que, sem te dares conta, depois de sorveres, de uma malga, um caldo de sopa servido pelo encarregado da quinta, te viste a transportar, encosta acima, os cestos de vime repletos de cachos de uva. Até aos carros de bois que aguardavam, impacientes, no cimo do monte. E eram tantas as uvas! Mas tu eras novo. E tinhas força. E vias o Sol. E as mulheres cantavam, enquanto colhiam meticulosamente, as uvas das videiras.
Nas minas eras só tu e aquele tenebroso medo pelas profundezas da terra. Nas minas sentias-te mais perto do inferno.
Ali, quando a noite chegava, desenhavas os teus olhos na Lua e, ao som do uivo dos lobos, sonhavas com o mar. E com os afectos. Não os conhecias, mas metias as mãos nos bolsos e agarravas-te à esperança que trazias contigo.
Ali havia o Sol. E a Lua. Talvez se andasses um pouco mais, encosta fora, desses de caras com o teu olhar afogado no mar. E as suas ondas fossem dóceis o suficiente para apaziguar esses sonhos que não te largavam.



III

As estadias da mãe no hospital foram sendo cada vez mais frequentes. Depois de saber a razão do seu sofrimento, mudei-vos para minha casa, aproveitando os dias de um seu internamento para proceder a algumas obras. Mandei fazer um quarto, espaçoso, e uma casa de banho, com os requisitos necessários para acomodar uma cadeira de rodas. Porque sabia que ela iria ser necessária. Ela e tu, pai. E eu.
Era Outono, as folhas, amarelecidas, caíam das árvores, os dias tornavam-se mais curtos e a minha melancolia, maior. (A dor, essa, pertencia por inteiro à mãe, nesta altura já medicada com morfina.) Era como se tivesse todo o peso do mundo nos meus ombros. Todos sabemos que as doenças terminais são dramáticas, mas só quem as atenta, dia após dia, consegue valorizar o desgaste e a aflição, o revés que atinge a vida dessas pessoas. A descrença vai minando a fé, o desânimo vai obstruindo todo e qualquer objectivo que antes, se tinha para a vida. E sem um objectivo, a vida deixa de fazer sentido. Foi com estes pensamentos, pai, que decidi não vos inteirar da realidade. Assumi essa responsabilidade, mas ainda hoje me interrogo se tinha o direito de o fazer. Simplesmente, não vos queria privar da fé nem da esperança. E não quis aumentar o peso do fardo que já carregavas. Contava contigo para cuidares da mãe na minha ausência e, sabendo-te incapaz de fingir, irias paralisar quando te precisávamos diligente.
Contava contigo e com a cadeira de rodas, apenas. Vimo-nos aos quatro sozinhos, abandonados à sorte madrasta, desapiedada. Até o gato, menino dos olhos da mãe, se viu na pele de enteado em casa de muitos filhos.
Não foi assim com surpresa, que nos começámos a aperceber do distanciamento das pessoas antes próximas, e a quem eu ia contando aquilo que vos escondia. Salvo algumas excepções, uma a uma, dia após dia, tornavam-se invisíveis ao olhar ávido de quem procura consolo numa simples palavra de apoio.
Restávamos nós. Tu e eu. E a cadeira de rodas. E o gato, menino dos olhos da mãe.
As horas que a mãe definhou, naquele quarto, foram as mesmas que tu passaste junto ao seu leito. Definhando também. Com a diferença de que agora, durante as noites, me tinhas por perto. Para lhe mudar a fralda, para espantar “aquelas coisas” que se agarravam ao tecto e que a assustava, fruto da sua imaginação imbuída pela morfina, para a mudar de posição, na cama, tantas eram as dores em todos os ossinhos do seu debilitado corpo, para lhe dar banho, para a convencer a tomar a medicação, algo a que se opunha terminantemente. Colocava os comprimidos na minha palma da mão e ela, com o copo de água na sua, ia escolhendo aqueles que lhe pareciam familiares. O dos diabetes, que já o tomava a alguns anos, era o primeiro que escolhia. O da tiróide, pequeno, redondo e vermelho, agarrava-o com os dedos, vagarosamente, tremulamente, e ingeria-o de seguida. Aos restantes, fitava-os, tentando descortinar de entre eles aquele que a sua mente repelia. Porque a fazia dormir. E ela tinha medo de não acordar. Assim, aquele ritual diário transformou-se no nosso tormento privado. Na nossa luta singular. Entre a sua teimosia e o nosso desespero. A sua função renal falida, a tensão arterial elevada, a pulsação acelerada, a febre alta, necessitavam urgentemente dos químicos que jaziam na palma da minha mão. E que por vezes por lá ficavam. Vencidos. Rendidos à determinação com que a mãe fechava os lábios à sua aproximação. “Esse não quero. Sinto-me mal com ele. Quem foi o médico que o receitou? Nunca precisei dele, porque haveria agora de o tomar?” E eu não queria gritar. Nem forçar. Repreendia, insistia, explicava a função de cada um. Mas não queria gritar. Nem forçar. Porque vi, mortificado, como lhe faziam no hospital. Atavam-lhe as mãos à cama, tapavam-lhe o nariz para que a falta de ar a obrigasse a abrir a boca. Tudo feito com aquela postura firme, de quem conhece todos os ardis para vencer as dificuldades da sua profissão. Ela esperneava, debatia-se, chorava. Gritava por mim e eu mesmo ali. Paralisado. Houve alturas em que fugia do quarto para me refugiar no corredor. Sem saber o que fazer, sabia tão só que tinha de a tirar dali. Levá-la para a segurança da minha casa.
Por isso não gritava. Nem forçava. Alisava-lhe o cabelo, dava-lhe um beijo na testa, guardava os restantes comprimidos e reconfortava a tua preocupação. “Não te aflijas pai. Toma-os amanhã. Não é por um dia que lhe farão falta.”
Foi assim que os dias e as noites foram passando. Lentamente. Dolorosamente. O Outono, deu lugar ao Inverno. A dor, deu lugar a uma dor ainda maior. Como se não existisse fim para a intensidade do sofrimento.
Mas sempre contigo a seu lado. E o gato, menino dos seus olhos. Ambos prisioneiros pelo dever a que a vossa fieldade e amor demonstraram.
Porque na tua família, ninguém é deixado para trás. Qual alcateia, que vagueia ao ritmo do elemento mais débil.


  
IV

No ano em que Portugal e Espanha assinavam um tratado de não agressão e em que a Alemanha invadiu a Polónia, dando assim inicio à segunda grande guerra, a tua mãe, alheia aos conflitos do outro lado do seu mundo, dá à luz um rapaz. Em treze de Fevereiro de 1939, nos olhos duros do teu pai havia lágrimas. Foste o primeiro dos seus cinco filhos. Sobreviventes. Dos restantes oito, uns expiaram à nascença, os outros foram falecendo com tenra idade. À força bruta com que a rudeza dos tempos e a crueldade de uma nação, maltratava o seu povo.
O corpo do teu pai, da cor da terra, esbracejou de contentamento. A notícia espalhou-se rapidamente pela aldeia e todos o queriam abraçar. Com largueza, porque a hora era de festa. Mate-se um cabrito, abra-se um pipo, encham-se os copos. Chame-se o padre, que nome já ele tem.
Só não tiveste, pai, foi tempo nem para aprender a andar, quanto mais para ir à escola. Os lameiros esperavam, ansiosos, pelo jeito que mais dois braços dariam nas sementeiras.
Era o centeio, o milho, a batata. Era o feijão, as hortaliças, as vinhas.
Era a carqueja e o restolho para a cama dos animais, a lenha para os rigorosos invernos.
E era a fome. Que ali, vivia-se dos próprios recursos. E só quem estava à altura de catar a sua própria sobrevivência, tinha lugar à mesa. Escassa. Do tamanho da amargura da terra e sacudida pelas longas invernias.
Ai pai… Mas as romarias! As romarias e os arraiais, traziam consigo os bailaricos, os gaiteiros, a alegria espontânea de um povo de coração grande e de mãos calejadas pela rudeza da terra.
Pequenos momentos sempre mágicos, fatias de lembrança por onde, ainda hoje, maças a tua saudade.
Ainda hoje sentes na alma o calor da fogueira, que ardia durante três dias, no largo da aldeia.
Ainda hoje vês na fundura do horizonte, o odor dos fumados, do pão de centeio, da tijela de vinho e a folia das danças e cantares que entravam pela noite dentro.
-Entra na roda e come presunto, homem.
-Ó criatura de Deus, aparelha os machos e ferra-lhes com a carga em cima. Depressa!
-Querias ficar de fora, grande maroto!
E tu, esquecendo por momentos a fome e a enxada, acedias.
E o mundo, todo ali mesmo ao lado, cabia no topo de uma costeira.
-Entre quem é!
-E não faça cerimónia, criatura.
-Sirva-se do salpicão, homessa! E prove aqui o vinho, que é da minha colheita.
Era assim a tua gente. És assim tu, pai.
Gente humilde mas honrada. Gente pobre, mas generosa. Gente de carácter, sem a mesquinhez que a tua dignidade repudia.
Foi com essa ingenuidade que, aos  vinte e dois anos, chegaste à Figueira da Foz para assentar praça. E mal saíste do comboio, os teus olhos foram logo procurar o mar.
Depois de o encontrarem, saíram de ti para se estenderem na sua imensidão.
É isto o mar? Perguntavas-te, maravilhado, enquanto os esperavas. 
Mas eles não queriam saber de ti. Demoravam-se, perdidos por entre aquele sonho que te obrigou a correr, de bilhete na mão, para a estação de comboios, em Vilar Formoso, quando recebeste guia de marcha.
Quis então o destino levar-te um pouco mais abaixo, no relevo deste País à beira mar plantado. Depois da teres feito a recruta, empurraram-te para dentro de outro comboio com destino ao RAL4, em Leiria. Este Centro de instrução militar, sobretudo para pessoal destinado ao ultramar, situava-se de um lado da encosta do castelo. No outro, nas tuas fugas do quartel, encontras-te o Sol desenhado naquele sorriso largo.
De mãos na cintura e de trouxa na cabeça, as graçolas, naquele teu modo estranho de as dizer, faziam com que a mãe deixasse cair, no chão, a roupa acabada de lavar.
Primeiro, envergonhada, não retorquia. Mas a tua insistência fez com que a sua timidez te olhasse. Primeiro vagamente. Depois nos olhos. E foi aí que esqueceste o mar. Colocaste o bivaque na cabeça e foste buscar a esperança ao bolso. De novo. Que ela tinha nascido contigo, e ainda hoje não te larga.
Já tinhas visto o mar. Acabaras agora, de conhecer o afecto.
Nem mesmo a resistência da sua família aos teus modos provincianos, arrefeceu aquele amor que nunca mais se apagou.
Quando a noite se aproximava e a hora de regresso ao quartel vos afastava, dizias-lhe em jeito de promessa:
-Quando estiver deitado, na camarata, vou imaginar que o Castelo se mudou para outro lugar. Estenderei a mão ao encontro da tua e dormiremos com elas dadas.
 E a mãe, doideira da tua vida, do outro lado da encosta. Acordada noite fora. Sentindo na sua, a tua mão. Carregada dos sonhos que a esperança fazia nascer.




V

O mês de Janeiro trouxe consigo a geada e as noites frias. E as insónias, pelas noites mal dormidas. Pela vontade férrea da mãe em me ter, também a mim, a seu lado. E para que tal acontecesse, qualquer pretexto servia. A fralda molhada, quando se encontrava limpa, o peso dos cobertores, que lhe magoavam as pernas, a almofada que era demasiado baixa, a máscara de oxigénio que lhe sufocava o respirar.
E tu, pai. Que não sabias fazer nada. Que me chamasses, depressa.
Que eu sim, sabia compor-lhe a cabeça sem lhe magoar o pescoço, regular a quantidade exacta de oxigénio e sobretudo, afastar aqueles demónios que saltitavam por entre as paredes do quarto.
E tu pai, que sim. E eu. Só o gato, menino dos olhos da mãe, se colocava de lado.
Pressentindo a azáfama desajustada às suas horas habituais de sossego, sentava-se a um canto do quarto, de orelhas avivadas, naquela sua pose de comiseração. E eu, quase que jurava tê-lo visto, por vezes, chorar.
Talvez as lágrimas que me tinham já fugido, as tivesse ele encontrado.
Pedisse-me a mãe a Lua e tinha eu ido busca-la. Só a vida, se encontrava demasiado longe daquele quarto onde definhávamos, para eu a intimar.
Numa madrugada desse Mês de Janeiro, acordei sobressaltado. Nesse dia, não foram os teus chamamentos que me fizeram saltar da cama, mas sim a falta deles.
Ouvi o relógio dar cinco badaladas e o coração acelerado empurrou-me pelas escadas abaixo, até junto do vosso quarto.
Chagado lá, ouvi apenas o bater do meu coração, entrecortado pelo ruido que a máquina de oxigénio fazia. Espreitei, a medo. Encontravas-te sentado na cama, olhando a mãe, que dormia. Fizeste-me sinal. Com o dedo na boca, pedias-me que não fizesse barulho. Falámos baixinho, enquanto o gato se roçava por entre as minhas pernas. Coloquei a mão por cima do peito da mãe e senti-a respirar. Tu sussurravas-me palavras de ânimo, pelo repouso da noite. Que as dores deveriam estar a diminuir, finalmente. A Primavera não tardaria, e com ela a mãe rebitaria. Que eu iria ver. Deus era grande!
Destapei, com cuidado, a mãe, fitei-lhe os pés e vi-os inchados.
Que sim, respondi. Deus era grande…
Agora dorme também tu, que bem precisas, pai.
Fui de novo deitar-me, sem conseguir adormecer. Por volta das oito horas, altura em que vos servia o pequeno-almoço, a mãe permanecia a dormir.
Parece um anjinho, disseste tu, olhando-a com ternura.
Não a acordes, que depois eu sirvo-lhe o pequeno-almoço.
Deixa-a descansar, que estas noites têm sido horríveis. Só Deus e nós sabemos, o quanto ela tem passado.
Acedi, a custo. Depois de te ver beber um copo de leite e comer uma torrada, saí para o escritório.
Por volta das onze horas, liguei para o teu telemóvel e quando me informaste, com agrado, do sossego da mãe, estarreci.
A mãe, nessa altura, já se encontrava em pré-coma, tendo acordado apenas no hospital, local dos seus horrores.
No dia anterior, tinha sido a ultima vez que vira aquele quarto. Mandado fazer para ela. E o gato, menino dos olhos da mãe. E os netos, orgulho das suas riquezas. (Era sempre com vaidade que mostrava as suas fotografias. Olhem tão lindos! )
Quando, finalmente, consegui que me deixassem entrar nas urgências do hospital, deparei-me com a mãe amarrada, de novo, a uma maca. No corredor. Abandonada à sua sorte, esquecida por entre uma multidão de outras macas. Coberta de sangue, por ter arrancado, do braço, a agulha da transfusão de sangue.
Mas tu não viste, pai. Não me viste a correr em sua direcção, prevendo o pior.
Querias ter ido, mas não deixei. Que ficasses. Que saísses daquele “eterno” quarto e fosses distender as pernas. Pois quando a mãe voltasse, ficarias de novo prisioneiro naquelas quatro paredes. Acorrentado à mãe.
Mas ela já não voltou.
Faleceu, seis dias depois, em Tomar. Nos cuidados paliativos.
Nesse dia, pai, choraste.
Depois de finalmente, te revelar as causas do sofrimento da mãe, choraste de novo. Perdeste a cor e o ânimo.
Sentiste a alma vazia. A alma e os bolsos, já sem a esperança que sempre te ajudou a seres maior que toda a crueldade com que o mundo te magoou.
No dia do seu funeral, de regresso a casa e contigo a meu lado, olhei o castelo enquanto conduzia. De coração destroçado, pensava no sofrimento a que, nos últimos meses tinha assistido. E se algum dia iria conseguir esquece-lo. E senti a sua encosta, aquela mesma encosta onde tu e a mãe se conheceram, dizer-me, com modos de aviso, que ainda não tinha visto tudo.
Nem eu, nem tu, pai.
Nem o gato, menino dos olhos da mãe.

Rui Girão

(continua… num qualquer post do futuro)