domingo, 1 de dezembro de 2013

Pelo que passo, faz de mim o que sou.



(Imagem:net)



Tirou os pés da areia, enquanto se sentava nas tábuas de um pequeno barco de pesca com ar de abandonado, perdido por entre a brisa de uma manhã acabada de parir.
Percorreu as redondezas com aquele olhar saudosista de quem, depois de muitos anos, regressa ao lugar onde cresceu.
E viu perto de si, por entre a recordação, o vulto de uma criança. Curiosa.
Também ela percorria com o olhar, o horizonte deixado pela imensidão do mar, enquanto cogitava na origem do vento, da mesma forma que teimava em subsistir na certeza de lhe conhecer o rosto.
A mãe chamava-o de teimoso. Porque não se calava até obter resposta às suas dúvidas. Mas era apenas a curiosidade a moldar-lhe as feições com que confrontava a espuma das ondas do mar, sempre que ela se desfazia aos seus pés.
Para onde foste?
Onde vais?
À falta de resposta, remexia com os seus pequenos dedos a areia, procurando encontrá-la. Mas ela era esquiva. Escondia-se por entre a pressa de chegar ao seu destino.
Rapidamente trocava o interesse com a sorte da espuma, pelo formato de uma pequena pedra, encontrada na areia remexida.
De onde vieste?
Quem te trouxe?
A pergunta era o alimento da sua alma. A pergunta intrometia-se em cada olhar que fazia ao cada vez maior desconhecido com que, dia após dia, se confrontava. A pergunta saciava-lhe a bisbilhotice mas não matava a fome que sentia, assim que digeria a resposta.
Ávida, era como se a pergunta morasse dentro da sua língua e a empurrasse ao encontro das exactas palavras que deixava cair a todo o instante.
O que é isto, o que é aquilo.
Para onde vai, de onde veio.
Do que é feito, para que serve.



Colocou os pés descalços na areia húmida, levantou-se do pequeno barco de pesca e encaminhou-se para junto das pequenas ondas, permitindo que elas molhassem a bainha das suas calças.
À medida que expulsava do seu olhar as lembranças do menino que já tinha ali sido, pensava no motivo que o trouxera, depois de tantos anos, à sua terra natal.

Existia uma pergunta para a qual nunca tinha encontrado a resposta:
Quem eu sou?
Era uma pergunta que repetia exaustivamente, até o pensamento lhe ficar em carne viva e a cabeça lhe parecer que ia explodir.
A cada momento que obtinha resposta a uma incerteza, a cada degrau que subia na sua caminhada através do conhecimento que os anos lhes iam oferecendo, aparecia, altiva, a falta de resposta à sua derradeira pergunta.
Quem eu sou?
Era como se quisesse alcançar o inalcançável.
Até que, naquele preciso momento, se fez luz. Foi como se tivesse nascido dentro de si uma vaga de conforto, por onde se deixou misturar.

Sorriu, primeiro. Para depois soltar uma gargalhada, que fez com que um bando de gaivotas levantassem de imediato voo.
Tinha percorrido cidades de países infindáveis. Aldeias de terras longínquas.
Tinha subido a montanhas para segredar aos ouvidos das estrelas a sua inquietação. E descido a vales para procurar a semente das suas dúvidas.
Quando afinal, a resposta estava ali. Sempre ali tinha estado. À sua espera.
Tinha acabado de alcançar, assim do nada, a liberdade que a resposta à sua dúvida existencial, achava, lhe iria proporcionar.
Agora que já sabia quem ele era, já não mais seria prisioneiro daquele barco de dúvidas por onde tinha navegado.
Afinal, navegar é por vezes ficar no cais, pensou.
E enquanto olhava a espuma das ondas do mar desfazer-se por baixo dos seus pés descalços, disse para si:
Não importa para onde vai a espuma, mas sim por onde passa para lá chega
r.


Rui Girão








2 comentários:

  1. Ora nem mais! às vezes teimamos em não ver o que está mesmo à nossa frente.
    Gosto imenso deste teu texto, por onde apetece ficar a imaginar o mar, seus ruídos e vai-vem sem cessar...
    Um beijinho grande

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    1. Grato por palavras tão simpáticas.
      Gosto que gostes. :)
      Bjokas.

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