quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida é assim.









O sol ameaçava romper timidamente no horizonte cravado nas suas costas, quando fechou a porta de casa e se dirigiu meio curvado, rua fora, deixando para traz o sorriso da madrugada, esculpido em mais um nascer do sol. Em que nem sequer reparou, distraído que ia nos seus pensamentos. Nas suas ânsias.
De quando em vez, a vida interrompia-lhe a serenidade, varrendo o chão que pisava, à força de sucessivas tempestades. Chegavam sem avisar, precipitadas, em forma de vagas, fazendo-lhe oscilar o corpo e arrastando-lhe o espírito para a margem do precipício. O vento uivava, furioso. O céu tornava-se negro e a turbulência era tão intensa que o obrigava a fincar bem os pés no chão para não tombar.
Em vão, por vezes.
Mas todos partiam do pressuposto de que era forte, sem se darem conta de como era para si árduo, cada vez mais árduo, reerguer-se.
Ficavam as nódoas e os arranhões, as amolgadelas e os cortes, patentes na alma, e que mais ninguém valorizava. Ou visualizava.
Trocando aos poucos aqueles pensamentos inquietantes pela necessidade de se afastar dali, acendeu o primeiro cigarro da manhã e lançou um último olhar à casa de onde acabara de sair.
Tinham lá ficado, para além de muitas das suas recordações de infância, todo o espólio dos seus pais, agora convertido em trapos e farrapos, amontoados pelo tempo e pela inquietação que sentia, sempre que se propunha deitá-los para trás das costas. Despejá-los no caixote do lixo. Deixava-se assim, levar pela intuição que lhe segredava, qual grilo falante, não ter chegado ainda a altura de apagar os traços das suas dores. Mesmo quando já não passavam de ruinas cobertas de mofo.
Olhou para o livro que trouxera da sua casa de infância, enquanto caminhava. Tinha-o encontrado por entre outros livros amarelecidos pelo esquecimento. Na capa, em letra vigorosa, desenhada pelo seu punho quando ainda juvenil, leu sem se dar conta, em voz alta: “Folhas Soltas”.
Abrandou o passo, abriu uma página ao acaso e leu, desta vez para si, o que, lembrava-se, não passavam de fragmentos de devaneios. Escritos ao ritmo com que a ilusão lhe foi pregando rasteiras:

“Ao longo do tempo traçam-se linhas de rumo sempre na esperança de melhorar o amanhã e esquece-se que em menos de nada, o imprevisto toma conta de todas as aspirações.
Adia-se o presente a troco de um futuro ilusório, onde se formulam expectativas e se compõem desejos.
Ao invés de se viver cada instante, único, hipoteca-se a Vida em nome de um dia onde o Sol, cansado de esperar, afinal se esvaiu por entre um tempo que já não pertence a este tempo.
Esgotado, também ele quis aspirar outros rumos onde realmente o considerassem.
E quando se toma consciência da realidade, exclama-se em tom de resignação:
A vida é assim.”

Fechou o livro, devagar.
O coração apertou-lhe os passos até que se sentiu imobilizado. Preso ao chão.
Afinal, a Vida já o tinha feito tombar tantas vezes, que até já se tinha esquecido da última vez em que tinha caminhado sem receio de tropeçar. Tinha-se adaptado involuntariamente ao infortúnio. Como se fosse ele a viver por si.
Voltou para trás, decidido em concretizar os intentos que o tinham levado a passar aquela noite na casa que fora dos seus pais.
Posso não saber o que Deus me reservou hoje. Mas amanhã poderá ser tarde para entender os seus propósitos, pensou à medida que ia enchendo um saco de plástico com as peças de roupa, sapatos, chinelos, cobertores, lençóis, e algumas bijuterias espalhadas pelos móveis, tantas vezes antes, usados e cuidados pelos seus pais. E que agora, depois do seu falecimento, não passavam de memórias. Memórias de um tempo em que o Sol brilhava por entre tanta coisa sempre nova. Tudo sempre polvilhado de sonho e deleite.
Esfregou os olhos, como que se obrigasse a acordar.
Hoje, podia não saber o que Deus tinha reservado para si. Mas sabia que se impunha fazer o seu luto.
Reerguer-se uma e outra vez mais. Naquele movimento aparente, simulacro do movimento real onde a Vida é mesmo assim.
Impiedosa.

2 comentários:

  1. Um beijo porque a vida não é impiedosa. Somos nós que a fazemos assim.
    Gostei muito do texto.

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    1. Um beijo porque é o que se leva da vida. Amizades como a tua. ** + *

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